O que o Carnaval do Brasil ensina sobre experience design

O que o Carnaval brasileiro ensina sobre experience design. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Não existe uma aula de experience design mais completa no Brasil do que o Carnaval. 

É uma festa democrática e em constante reinvenção. 

Do Sambódromo e blocos tradicionais às festas privadas, festivais e blocos pop de marca – com direito a veteranos como Ivete Sangalo ou estreantes como o DJ Calvin Harris levando mais de 1 milhão de pessoas às ruas de São Paulo (você viu?). 

Como não dá para ser onipresente, convidamos profissionais de diferentes cidades para contar, em primeira pessoa, o que faz a experiência do Carnaval ser única onde vivem.

Um giro por alguns Carnavais do Brasil e pelo que dizem sobre cultura e experiência.

O Carnaval de Belém do Pará

Por Lux, gestora de projetos, produtora cultural e consultora, diretora e curadora artística musical no Festival Amazônia Sour

“Por aqui sempre tivemos alma de farra e se não tiver bloco, a gente inventa um pra curtir.”

“Aqui, o carnaval é em pleno inverno amazônico e isso já traz uma experiência diferente dos outros carnavais do Brasil. Mas isso não é nenhum impeditivo para curtirmos, óbvio!

Muito antes de grandes eventos, blocos e festas de carnaval, Belém sempre teve os bloquinhos de ruas, vilas, bairros que foram criados e movidos por vizinhos, amigos e familiares.

Bem bairrista que somos, no nosso Carnaval também tem MUITA música paraense para curtir, com chuva ou sem chuva, eventos como o Circuito Mangueirosa, que infelizmente este ano não será realizado por falta de incentivo e patrocinadores. 

Mas não vai faltar energia para curtir todos os blocos e festas como o Bloco do Vila Container. A gente treme!

Além da capital, o Pará tem também o Cordão da Bicharada, em Cametá desde 1975; e também Os Bois de Máscara e Os Cabeçudos, de São Caetano de Odivelas. Procurem saber!”

O Carnaval de Belo Horizonte

Por Cleu Oliver, Fundador BARRA.CX e Diretor Criativo

BH é quem? BH é nós. Lá, a vibe importa mais que o look, bloco de carnaval é também festa política e o Carnaval mais legal acontece ao redor do centro, não nele.

BH é quem? BH é nós. Para conhecer Belo Horizonte e seu carnaval, é importante entender o que cria uma cidade, e a frase que inicia este texto traduz muito dos principais movimentos de BH: energia local, criativa e pulsante. Foi assim que nasceram o Xeque Mate, o Lambe Lambe e o Xá de Cana, por exemplo, algumas das bebidas (RTDs) que dominaram o Brasil e que são de lá.

Eu costumo brincar que qualquer pessoa que queira aprender sobre experiência, hospitalidade e festas precisa conhecer a capital mineira. Existe um jeito único de imaginar comunidade, de pensar experiência como produto, e algumas das pistas mais gostosas que vivi no mundo foram em BH. Lá, a vibe importa mais que o look, bloco de carnaval é também festa política e o carnaval mais legal acontece ao redor do centro, não nele.

Diferente do Rio de Janeiro, por exemplo, que tem carnaval desde que se conhece por gente, nós inventamos recentemente a nossa festa (deve ter uns 12 anos). O carnaval de BH começou depois da proibição de ocupação da rua por movimentos populares, e a nossa revolta foi festa. Assim surgiu a Praia da Estação, na principal praça da cidade, a Praça da Estação, que foi tomada por festas, por instrumentos e por gente legal — de biquíni e shorts para viver um dia de praia. Acho que foi aí que sonhamos o carnaval.

Pra quem dizia que Belo Horizonte não tinha praia, nós temos. E quando a prefeitura desligou as fontes públicas que refrescavam o rolê, foi criado um dos maiores fenômenos do carnaval de BH: um caminhão-pipa molhando a galera no final do bloco. (“Vai, Chapolin, joga água em mim!” — se você ouvir isso em algum bloco, com uma pessoa fantasiada de Chapolin em cima de um caminhão-pipa, saiba: você está num rolê legal). O carnaval de BH tem essa cara.

De lá pra cá, o carnaval cresceu. E se tornou um dos principais do país: são mais de 5 milhões de pessoas, mas, por maior que ele seja, ainda carrega muito da sua essência. Você não pode deixar de tomar o Catuçaí do Nandão ou qualquer uma das bebidas enlatadas que são feitas na cidade. A minha sugestão é descentralizar o carnaval, explorar o centro, mas não se limitar a ele. Viver a rua de dia e conhecer festas e espaços durante a noite.

Os camarotes e eventos privados (se não os afters) não são tão comuns nessa época do ano, mas temos boas opções disponíveis, como o Carnaval dos Sonhos, que acontece no Mineirinho. Falando de festas privadas, alguns blocos costumam fazer uma festa após, as oportunidades legais aparecem na hora, então procure saber.

O Carnaval de Recife

Por Duda Maciel, Gestor de Projetos na área de Economia Criativa do Sebrae PE

Apropriação é a grande palavra que o Recifense tem do seu Carnaval. Eu desconheço um outro estado que cante o seu hino durante um bloco.

“Uma coisa que me marca muito é o depoimento de amigos que vieram passar o Carnaval aqui pela 1ª vez. Tive uma namorada carioca que ficou impressionada com todas as pessoas literalmente fantasiadas no Carnaval de Olinda.

Além da apropriação local, a diversidade e pluralidade também são destaques. Aqui, um super astro vai cantar no palco principal da cidade e depois na periferia ou um bairro mais afastado. 

E o melhor é a cumplicidade de todo mundo que está naquele momento pelo bem do Carnaval de Recife e Olinda. 

Ela toca e mostra essa pernambucanidade que só o Carnaval das nossas cidades tem. 

Não é à toa que durante o ano inteiro a gente veste camisa com a bandeira do Estado e no Carnaval essa bandeira sobe para o rosto, sobe para a cabeça, desce para o corpo inteiro e vira fantasia.”

O Carnaval do Rio de Janeiro

Por Júlia Paula, diretora criativa

“As experiências do Carnaval do Rio partem de valores de um coletivo, e não de algo particular.”

“É muito legal quando você é personagem do Carnaval, agora com um corpo-mãe que ocupa de forma urbana e livre as ruas do Rio. Ver o quanto a cidade se transforma, onde as pessoas se encontram para ser suas próprias alegorias, para fazer o seu próprio ritmo de rua. O Rio todo abraça essa fase, tudo pulsa diferente. 

Por outro lado, como profissional de criação e experiência, vem uma responsabilidade muito diferente.

Principalmente trabalhando com uma cabeça criativa dentro da Sapucaí, com uma marca como a Portela, por exemplo, precisamos entregar um Carnaval que tenha um conteúdo genuíno e seja fiel ao que de fato é a raiz, ao que de fato é o samba.

Hoje, eu me sento numa mesa com uma equipe que tem um poder de voz, de fala, e monta essas experiências de uma forma consciente, coletiva e madura. 

Então é um outro viés, não sou mais um personagem. Eu sou um fio condutor de experiência que conta uma história.”

O Carnaval de Salvador

Por Jessica Almeida, Especialista de Comunicação e Cultura

A grande peculiaridade do Carnaval de Salvador é que ele não começa no mês do Carnaval. No momento que o sol começa a sair, a gente já se prepara. A cidade entra toda num grande modo de ensaio.

Se antes o Pré-Carnaval de Salvador começava na quarta, agora uma semana antes já tem o Furdunço, bailinhos no Santo Antônio Além do Carmo e uma série de trios, mini-trios, pranchões, outros bichos e outras invenções no calendário oficial. E existe uma série de variações que a gente segue inventando ao longo dos carnavais, como o Navio Pirata.

Já a semana do Carnaval é onde Salvador desabrocha e mostra tudo que ficou condensado e foi fermentado nesses primeiros meses de verão. 

Salvador, diferente de outras cidades do Sudeste, ainda tem os outdoors de madeira pelas ruas, então você já vê a cidade toda envelopada por grandes marcas. Tem também ativações no Edifício Sulacap e na Praça Castro Alves, a parada final de toda a movimentação no centro.

Vemos muitas ativações em blocos mais midiáticos, mas blocos tradicionais como Ilê Aiyê, o Muzenza, o Commanches e tantos outros também mereciam mais valorização e destaque.

Olhar mais para esses blocos seria um grande salto para o Carnaval de Salvador, porque é isso que torna a gente diferente, é essa mistura. 

O Carnaval de São Paulo

Por Rogério Oliveira, cofundador do coletivo Pipoca

O Carnaval possibilitou a reconexão do morador de São Paulo com o espaço público, tirando o aspecto apenas funcional de uma rua, avenida e transformando-a em palco de expressão coletiva.

O Carnaval de São Paulo tem um papel revolucionário para seus moradores, é uma característica única entre os Carnavais do Brasil.

O papel revolucionário é a transformação da maior cidade da América Latina, de suas avenidas e ruas em ocupação cultural

Somado a isso, o Carnaval de SP se tornou o que é como cidade. Não sei se o maior, porque essa régua não importa. Mas com certeza o mais diverso, o Carnaval resumo do Brasil, com uma mistura dos blocos de bairro, blocos secretos, aos melhores Blocos paulistanos e aos blocos e artistas do RJ, Salvador, Recife. 

Uma cidade e um Carnaval que soma o Brasil.

E como é a experiência do Carnaval na sua cidade? Nos conte no Instagram @_oclb, vamos adorar saber. 

Um ótimo Carnaval! Que você aproveite o feriado do jeito mais brasileiro possível.