Faz alguns dias que um podcast do Today Explained levantou uma pergunta que ainda pensamos sobre: o cigarro voltou à moda?
Segundo a reportagem, a Geração Z, que cresceu ouvindo sobre sustentabilidade, saúde mental e consciência de consumo, estaria “hypando” o tabaco de novo.
Não é só vape ou os bombados sachês de nicotina da gringa. O Brasil registrou um aumento no número de fumantes de cigarro tradicional pela primeira vez desde 2019.
Mais do que comportamento, porém, o principal diferencial está em como a Geração Z transforma o ato em estética.
No ano passado, houve um aumento de 70% na busca pelo termo “smoking pose” entre jovens de 18 a 24 anos no Pinterest.
Está nas redes, mas também nas grandes telas: 80% dos filmes indicados ao Oscar de 2025 tinham imagens com tabaco. E ele está presente no mundo pop tb, do Brat Summer da cantora Charli XCX a cortes de vídeos de Sabrina Carpenter e Chappell Roan, o cigarro tem aparecido cada vez mais nas telas (comece a reparar).
Para quem cria experiências, é tentador usar esse tipo de dado para construir uma narrativa simples sobre quem é essa geração.
Mas a realidade é mais incômoda (e mais interessante também).
O problema de falar em “a GenZ” como bloco homogêneo
Gerações são atalhos úteis para entender tendências, mas péssimos mapas para entender pessoas.
A Geração Z de Lagos, São Paulo e Seul, pode até compartilhar a data de nascimento e um mesmo celular, mas é aí que muito da semelhança termina.
Por mais que tenham acesso ao conteúdo produzido do outro lado do mundo, fatores como contexto cultural, poder aquisitivo, acesso à educação, sistema político e localização criam comportamentos completamente diferentes em uma mesma faixa etária.
Além disso, ela carrega uma característica que a torna especialmente difícil de classificar:
A Geração Z é a geração da contradição.
Não é mentira que esta é a geração mais atuante no combate à crise climática, mas isso não quer dizer que ela abra mão do fast fashion. Enquanto apostam no wellness e reduzem o consumo de bebida alcoólica, aumentam também o consumo do tabaco.
O ponto, para quem planeja experiências e eventos, é esse: a GenZ não segue um script. É uma geração ainda mais fragmentada que as anteriores.
Mas há sinais que valem prestar atenção.
O que o SXSW 2026 mostrou sobre a GenZ?
Quando apresentamos o Download oclb SXSW: Decodificando o Futuro das Experiências, um dos capítulos mais comentados foi exatamente sobre os novos comportamentos do público jovem e o que eles implicam para o planejamento de eventos.
Alguns dados que mencionamos:
- A GenZ é o grupo geracional que mais frequentou eventos nos últimos seis meses — 73%. Estão à frente dos Millennials (71%), Gen X (55%), Boomers (51%) e Matures (47%), segundo pesquisa da Deloitte (dezembro de 2024).
- 88,2% da GenZ considera importante participar de eventos corporativos, segundo o Boldpush Research de novembro de 2025.
É uma geração que quer estar presente, que valoriza o presencial e quer experiências que sejam, como resumimos em nosso download: autênticas, rápidas e saudáveis.
Três sinais que merecem atenção
1º Valorização de experiências analógicas: A GenZ busca o que o experience designer Julius Solaris chamou em sua palestra de “dopamina de pessoas, não de pixels”. Experiências phone-free, encontros reais, hobbies analógicos. Vinis, crochê, livros físicos, câmeras analógicas. Tanto tempo online gerou mais apreciação pelo offline.
2º É a vez do “soft clubbing”: 62% da Geração Z não bebe álcool em eventos de negócios (segundo a pesquisa Boldpush, também do Julius Solaris). É uma tendência que sinaliza ainda mais eventos diurnos, mocktails e formatos que não dependem do álcool como facilitador social. Quem ainda projeta a experiência de networking em torno do bar precisa repensar essa lógica, mas isso não quer dizer que a festa tenha morrido.
3º Atenção fragmentada: É a hora de migrar do Event Planning para o Moment Planning. A GenZ prefere sessões de até 20 minutos e formatos de microevento. Isso não significa que ela não quer profundidade, mas sim relevância imediata.
O que muda no design de experiências?
Não estamos falando de “fazer eventos para GenZ”. Estamos falando que essas mudanças de comportamento dos novos adultos são sinais que afetam o design de qualquer experiência presencial.
Kasley Killam, pesquisadora de saúde social que se apresentou no SXSW, disse algo que nos marcou: a próxima economia de bem-estar de um trilhão de dólares será construída sobre saúde social e laços humanos.
Não é uma previsão sobre uma faixa etária específica, e sim um olhar sobre o espírito do tempo.
Num mundo onde máquinas já produzem histórias, imagens e arte — como lembrou Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, em sua palestra na SP House — “o que vira exclusivamente humano é a presença“.
E a Geração Z, com todas as suas contradições, parece estar chegando a essa conclusão antes de todo mundo.