*Este artigo foi publicado originalmente na edição #252 da Cápsula, nossa newsletter para designers de experiência. Assine aqui e receba a próxima edição.
Há quatro anos, quando estivemos no festival carioca Rock The Mountain, escrevemos um review destacando o cuidado da organização com os detalhes de sua cenografia:
“Um festival que cobre os seus postes de tricô colorido (@crochemigas) e pendura cestos de plantas em suas laterais mostra um cuidado que você sente ao longo de toda a produção. É de se perguntar: ‘se eles pensaram até nisso, o que esperar das demais experiências?’”
Em nossa viagem de férias pelo Maranhão, Piauí e Ceará, foram vários os momentos em que recordamos o episódio dos postes cobertos de tricô.
Momentos em que a experiência se destaca pelo detalhe.
Essa cápsula nasce com um propósito duplo: compartilhar insights sobre design de experiências a partir de exemplos reais do dia a dia, mas também agradecer e recomendar quem esteve por trás de algumas das melhores memórias de nossa recente viagem.
As melhores experiências vêm do boca a boca
Passamos uma semana nos Lençóis Maranhenses, com base nas três cidades que compõem o roteiro: Barreirinhas, Atins e Santo Amaro.
Os passeios para os Lençóis são feitos por guias especializados, e somente carros credenciados podem entrar no parque. Para ser guia, é preciso ser formalmente credenciado pelo ICMBio e possuir o registro no Cadastur do Ministério do Turismo. Ou seja, só consegue esses certificados quem se dedica horas para passar nas provas.
Ainda assim, em nossos primeiros passeios por lá, a impressão que tivemos dos nossos guias foi que estavam mais qualificados para serem motoristas do que guias. Eles simplesmente nos levavam de uma lagoa a outra, apontando para cada uma e dizendo ao grupo:
“Essa é a Lagoa do Peixinho. Vocês podem ficar aí, que eu volto em 45 minutos para buscá-los.”
Nada de explicação sobre como as lagoas se formam. Por que a Lagoa é do Peixinho? Como é que essa lagoa, no meio das dunas, tem peixinhos de verdade? Como vieram pra cá? Que peixinhos são esses?
E nossos passeios foram assim até que um conhecido que esteve nos Lençóis uma semana antes de nós viu nossos stories e nos enviou uma DM: “Contratem o Josué, guia da Martinelli (@martineleturismo). Ele foi o melhor guia dos nossos passeios.”
Dito e feito.
Josué fez toda a diferença na experiência dos passeios seguintes. Explicou a fauna e flora locais (inclusive, como vieram parar os peixinhos e outros peixes ainda maiores nas lagoas), como se formam as lagoas, como as dunas mudam o tempo todo (por vezes, desviando rumos de rios e formando novas lagoas), enfim, Josué trouxe storytelling para o nosso storyliving.
Além disso, ele procurava estacionar o seu carro distante dos demais carros de passeio, um cuidado com a exclusividade de seus clientes que também fez diferença em nossa experiência.
Isso é colocar o cliente no centro.
Experiências que vão além do prato e do paladar
Comemos muito bem nessa viagem e, entre os restaurantes que guardamos com carinho na memória, estão a Casa de Juja em Atins, o Maravie Gastrobar em Santo Amaro, o La Cozinha e o Trabalha Brasil em Barra Grande (Piauí) e o Mar de Rosas em Fortaleza.
Todos esses recomendamos de olhos fechados (e água na boca).
Além da comida deliciosa, o que mais se destacou em cada um desses lugares foi a atenção aos detalhes.
O ambiente intimista, a velocidade dos pratos à mesa e os drinks muitíssimo bem executados da Casa de Juja e do Maravie (ambos indicados com a mesma recomendação: cheguem cedo para jantar, porque depois a espera pode levar horas).
A sofisticação e o atendimento de primeira classe do La Cozinha, o mais refinado da lista, cujo cardápio assinado pelo chef belga Hervé Witmeur guia-se pelo conceito “Da Fazenda ao Mar”, usando ingredientes locais e vindos direto da praia e da fazenda La Reserva, de propriedade dos donos do restaurante-pousada.
O clima pós-praia, com direito a samba ao vivo e mesinhas na calçada do Mar de Rosas, onde fomos dois dias seguidos e nos esbaldamos de piabinha frita, pastéis de queijo coalho, moqueca de arraia e cerveja gelada.
Mas foi o Trabalha Brasil que nos fez voltar mais vezes, além de ser onde passamos a maior parte do tempo.

Indicado pela equipe do La Cozinha, o Trabalha Brasil é um típico bar de praia para enfiar os pés na areia e assistir ao tempo passar. A comida e o clima são gostosos, a cerveja é gelada e o serviço, de qualidade. Mas o que mais nos chamou a atenção foi a sua playlist.
Agradável, em volume adequado e indo do rock ao reggae e da mpb à bossa nova, a rádio do bar-praia era assinada por vinhetas bem-humoradas, nas quais o locutor nos fazia questão de lembrar onde estávamos: “Trabaaalhaa Brasil!”
No meio do paraíso, de férias e com o pé na areia, cada vez que escutávamos essa vinheta, sorríamos e lembrávamos o que estávamos fazendo lá: justamente o oposto. Era um lembrete constante de que estávamos de férias.
Design de experiências é cuidar dos cinco sentidos, sendo que a maioria dos (bons) restaurantes preocupa-se exclusivamente com a visão e o paladar.
Levante a mão quem nunca ficou irritado com o volume da música ao vivo? Ou com o jato congelante vindo de um ar-condicionado na direção da sua mesa?
Pra dizer que não falei das flores

“Reparou que os dois lugares onde estivemos e onde vimos os funcionários planar a areia foram aqui e no Recanto Ponta Verde (@restaurante_recantoponta_
Como no exemplo do festival da abertura deste artigo, você pode esperar uma experiência diferenciada de serviço em um lugar onde a equipe tem o cuidado de planar a areia diariamente.
O Recanto Ponta Verde é um restaurante caseiro e familiar, liderado pela chef Dorinha, que fica no passeio de mesmo nome saindo de Santo Amaro.
Quatro em cinco restaurantes dos passeios nos Lençóis funcionam da mesma forma: você escolhe o que vai almoçar no início dos passeios, o guia envia o pedido para os restaurantes, e ao chegar lá, você e seu grupo ocupam uma das várias mesas reservadas, onde come-se um gostoso PF seguido de um merecido descanso no redário.
Mas, no Recanto Ponta Verde, encontramos uma experiência diferente dos demais. Mais uma vez, nos detalhes.
Os talheres vinham apresentados dentro de um paninho bordado amarrado por uma folha com uma flor no centro. O azeite, embalado em tricô colorido (olha ele aí de novo). O teto, decorado por bandeirinhas coloridas das festas juninas.

Nada demais, nada necessário, mas detalhes que, para um olho atento, fazem a diferença, viram memórias e que merecem ser compartilhadas em posts como esse.
Outro detalhe que vamos levar daqui veio da Pousada Lanea (@pousada.lanea), em Atins. Entre as mais de 350 hospedagens em que ficamos na vida nômade, esta foi a única que deixou café especial como cortesia no quarto. Não eram como as cápsulas que costumamos ver, mas pacotinhos desse drip coffee de uma marca mineira da qual já éramos consumidores. Mais um gesto que parece simples, mas transforma a experiência.

E você? De que exemplos se lembra de experiências que se diferenciam pelos detalhes? Conta pra gente no Instagram! Vamos adorar conhecer as suas recomendações também.