Você, que acompanha a nossa newsletter Cápsula, já deve ter reparado que de vez em quando mencionamos um livro que estamos lendo no cabeçalho.
Somos fãs de leitura e da literatura nacional.
Por isso, quando fomos convidados pela Fundação Itaú para participar da 24ª edição da FLIP – a Festa Literária de Paraty – topamos mais rápido que você diga Torto Arado.
Embora conhecêssemos Paraty de outras viagens, essa foi nossa primeira FLIP. Na cápsula de hoje, compartilhamos como foi essa experiência.
A densidade de conteúdos interessantes por metro quadrado
Vimos muitas conversas interessantes nesta FLIP.
Mérito de Rita Palmeira, curadora do festival, mas também de sua equipe. Além, é claro, das casas parceiras (literalmente, casas do centro histórico de Paraty assinadas por marcas, selos, entidades, coletivos independentes e editoras).
A FLIP divide-se em duas programações:
○ A oficial, que acontece numa tenda fechada e que é preciso pagar para participar (tudo o que acontece lá também é transmitido em tempo real e gratuitamente no Youtube da FLIP, além de ser exibido no Palco da Praça, uma das contrapartidas sociais do evento).
○ E a paralela, oferecida pelas casas parceiras, que foram 46 casas em 2026 (em comparação com as 35 de 2025).
Ou seja, estamos falando de um festival com 47 palcos!
Assistimos (e recomendamos, já que ainda está disponível no Youtube da FLIP) à abertura da poeta Marília Garcia, uma leitura sensível e performática à homenageada do ano, a também poeta Orides Fontela; os interessantes encontros entre as autoras Andrea Del Fuego e Paulinny Tort (mesa 4), Drauzio Varella e Carmen Stephan (mesa 8) e João Cezar de Castro Rocha e Paulo Schiller (mesa 15).
Mas se você tiver que assistir a uma única mesa dessa programação, vá direto ao momento que parou a FLIP 2026, quando a ministra do STF Cármen Lúcia subiu ao palco e foi ovacionada do início ao fim (mesa 10).

Mas não só de mainstage se faz uma FLIP e assistir a autores em conversas íntimas nas casas parceiras como Mariana Carrara Salomão (somos fãs), Paula Sibilia (viramos fãs), Michel Alcoforado, Vera Iaconelli, Nathalia Timerman, Pedro Tourinho e Tati Bernardi, tudo isso de graça, foi literalmente inspirador.
O segredo de sucesso do conteúdo da FLIP não se deu somente pela curadoria ou pelos autores convidados, mas também, e principalmente em alguns casos, pelos mediadores das mesas. Todos os que vimos estavam muito preparados, atentos ao tempo e felizes por estarem naquela posição. Nossos parabéns!
Perrengues da FLIP
A gente ama um festival descentralizado, que acontece em uma cidade de pequeno ou médio porte e que você precisa viajar e se hospedar no lugar para participar (veja aqui o vídeo que fizemos da FLIP deste ano).
Porém, não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que perrengues eram esperados em uma cidade de 40 mil habitantes que recebe um número ainda maior de turistas no fim de semana para uma programação quase totalmente gratuita.
Surpresa mesmo foi o imenso despreparo por cuidados básicos de produção de algumas casas parceiras da FLIP.
Em especial, o subdimensionamento — para não dizer descaso — com pessoas nas filas, entre elas idosos, debaixo do sol, esperando horas em pé para assistir aos seus autores favoritos. Em mais de um caso, assistimos a bate-bocas com a equipe de produção de pessoas frustradas que não conseguiram entrar.
Vídeos como o do creator literário Sandro Miranda resumem perfeitamente aquilo que acreditamos ser a pior tensão da FLIP: a péssima gestão das filas (quando havia alguma) e a consequente frustração de quem ficou lá horas de pé sem ser avisado de que não conseguiria ver o que queria. O painel cancelado entre a ministra Cármen Lúcia, a jornalista Miriam Leitão e a autora Conceição Evaristo foi só o exemplo mais evidente que ganhou os noticiários e as redes sociais.
Também teve apagão na quinta-feira da FLIP. A programação oficial não parou, afinal, esse tipo de incidente é frequente em Paraty, então a produção investiu em geradores. Porém, muitas das casas parceiras, restaurantes e até mesmo algumas pousadas do centro histórico ficaram sem luz por horas.
Ouvimos que este é um problema recorrente na região, então prepare-se para encarar os 25 anos da FLIP no ano que vem.
As experiências de marcas da FLIP

Mesmo com o recorde de público (14% a mais que 2025), em ano de Copa do Mundo e eleições, a FLIP amargou uma redução de 48% de investimentos dos patrocinadores comparada com o ano anterior (mais um mérito da organização do evento em entregar tanto com tão pouco).
Observamos algumas marcas ativando a FLIP:
- Netflix, que envelopou carrinhos de pipoca com distribuição gratuita ao público
- Motiva, produziu uma casa parceira com uma programação assinada pela curadoria da FLIP
- Audible, assinou a Casa Oásis e promoveu uma degustação de seus audiobooks usando tecnologia RFID
- Fundação Itaú, assinou uma casa pelo primeiro ano com programação sempre cheia e convidadas como Evaristo Conceição e Michel Alcoforado (uma das poucas casas com fila preferenciais para idosos e pessoas com deficiência)
- SESC, que assinou não uma, mas três casas, e trouxe para sua programação nomes como Angela Davis, Ana Maria Gonçalves e Arnaldo Antunes
- Sebrae, que assinou a Casa Favela, uma das maiores e mais acolhedoras casas desta edição
Vale destacar também a Casa da Companhia das Letras, que celebrou seus 40 anos com a campanha “ler é companhia”, projetando experiências dentro do mesmo tema (como uma cabine fotográfica), a Casa Sete Selos e a Casa Folha.
Observamos muitas oportunidades para marcas atacarem dores da produção e aliviarem pontos de tensão da jornada do público.
Porém, com uma importante ressalva: estamos falando de um festival que acontece há mais de vinte anos, com um público cativo e muitos códigos culturais sensíveis de uma comunidade fiel de participantes da FLIP.
Ou seja, antes de propor uma solução aparentemente simples (como um aplicativo para pesquisar a programação do festival), vale se perguntar: “por que isso nunca foi feito antes?”
Saldo final da FLIP: um festival para incluir no calendário
Se você é uma pessoa curiosa e com uma boa dose de paciência para filas, você não vai se arrepender de ir à FLIP.
A FLIP é um desses eventos necessários para a sociedade, do tipo que você volta sentindo-se mais inteligente, mesmo que saia de lá sem comprar nenhum livro.
No mínimo, você vai escutar conversas curiosas e instigantes, além de descobrir uma lista de novos autores e livros para ler e conversar a respeito até o próximo ano (como não se interessar por “Imortais”, da Paulliny Tort? Ou “Malária”, da Carmen Stephan?).
Paraty é uma delícia de cidade, charmosa, com boas opções de restaurantes, cafés e cachaçarias.
Mesmo as famigeradas pedras do centro histórico nos ensinam a andar devagar, atentos ao chão, um lembrete quase meditativo de focar-se no presente.
Mesmo com os perrengues, curtimos muito a experiência e, agora que fomos pela primeira vez, queremos voltar todos os anos.