Mega shows no Brasil: por que o público lota estádios?

Mega shows no Brasil: por que o público lota estádios?
BK. @bmaisca / @30ebr

Você viu o show do rapper BK no Nubank Parque?

Foi a primeira vez que um artista brasileiro de hip-hop esgotou um estádio sozinho aqui, e justo no palco que Kendrick Lamar não conseguiu lotar em 2025.

Ver show nacional em estádio não é a notícia. Já foi o Roberto Carlos nos anos 1980, a Xuxa na década de 1990 ou a Ivete Sangalo nos 2000, entre tantos outros.

A novidade, agora, é a frequência. 

Nos últimos anos, vimos artistas dos mais diversos gêneros e estágios de carreira ocuparem os maiores palcos do país com apresentações próprias. 

Teve Sandy & Júnior, Dominguinho (João Gomes, Jota.pê e Mestrinho), Xuxa, Jão e Zeca Pagodinho.

Fora as turnês de despedida, como fez o Skank; as de reencontro, como Tribalistas; e ainda projetos especiais, como Tardezinha do Thiaguinho.

E nem é só estádio. A Anitta acabou de esgotar os Ensaios da Anitta no Parque Olímpico em Janeiro de 2027, o mesmo espaço do Rock in Rio, em cerca de dez horas, e até se emocionou, dizendo que “não é fácil fazer no nosso país o que a gente acabou de fazer”. 

Por que então experiências musicais de grande escala estão ganhando força justamente quando tantas tendências apontam para experiências mais segmentadas e exclusivas? 

Ainda faltam pesquisas e dados que expliquem esse porquê, mas temos apostas.

Toda semana, o que importa em design de experiências e inovação.

Consequências de um Brasil que se escuta

No Spotify, os 10 artistas e as 10 músicas mais ouvidas no país em 2025 foram brasileiros, e a própria plataforma coloca o Brasil entre os países que mais consomem música local. 

E 6 dessas 10 músicas são gravações ao vivo, ou seja, mesmo no fone o brasileiro escolhe ouvir o som de um show.

Entre os álbuns mais ouvidos do último ano, só um era internacional, o Mayhem, da Lady Gaga, que se apresentou em Copacabana.

É um pouco do que falamos na Cápsula #255, sobre as experiências que foram para dentro de casa. 

Poucas coisas substituem o sentimento (e a memória) de uma experiência coletiva, em que você passa perrengue na fila, no transporte, no calor, e ainda assim canta em uníssono com 50 mil pessoas.

Ainda mais quando este é um dos artistas da sua vida.

“Eu fui, eu tava lá”

Mega shows no Brasil: por que o público lota estádios?
Luan Santana lota Nubank Parque. @bmaisca / @30ebr

Pense na última turnê de Gilberto Gil, que levou mais de 300 mil pessoas ao Nubank Parque. 

Ou nos irmãos Caetano e Bethânia, no que pode ter sido a última turnê juntos.

No BK, celebrando os dez anos de um disco de rap que chegou pela primeira vez a esse patamar.

No Luan Santana, fazendo seu “registro histórico” por todas as fases da carreira.

Em comum, são shows que vendem a chance de testemunhar um momento que não se repete e, depois, poder contar para quem não foi. 

Ainda que no Brasil 33% do público contraia dívidas para ir a shows, o preço também não pode ser desconsiderado nesta conversa.

Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o preço médio chegou a US$ 144 em 2026, o público já afirma que passou a priorizar poucos eventos no ano. 

E se é para gastar mais e ir a menos shows, então o que faz uma experiência valer esse investimento e espaço na agenda?

O que faz valer a experiência

Este movimento todo não é sinônimo de escala.

Já vimos turnês em estádios por artistas nacionais sendo canceladas por baixa venda, mas produzir nesta escala exige custos muito altos e fechar essa conta num país diverso como o Brasil não é simples.

Para quem trabalha com experiências, a questão é mais sobre o motivo que faz alguém querer estar lá. 

Até entre quem frequenta festivais, a preferência já pende para o show individual. Na última pesquisa do Mapa dos Festivais, 52% dos entrevistados disseram preferir shows e 48%, festivais. 

Um show pode entregar uma experiência muito mais exclusiva e centrada no fã daquele artista do que um festival, onde a maior experiência muitas vezes está na descoberta e variedade de opções.

Exclusivo também pode ser um momento que não se repete, mesmo dividido com 50 mil pessoas ou 2 milhões. Pode ser num estádio, na praia de Copacabana ou numa ativação de marca com 200 convidados.

No fim, talvez a experiência mais exclusiva seja justamente aquela que muita gente queria ter vivido, mas só quem esteve lá pode contar.

Como sempre, as coisas coexistem.