O que acontece quando um festival tem 25 palcos espalhados pela cidade?
Foi em uma dessas conversas despretensiosas, durante o lançamento do SP2B, que a Maíra Blasi nos disse: “Se for ao Maranhão, vá durante o São João”.
Junho marca o fim da temporada de chuvas e o início da alta temporada nos Lençóis Maranhenses, quando as lagoas estão cheias. É justamente nessa época que São Luís realiza uma das festas populares mais ricas e singulares do Brasil.
A maioria dos turistas que segue para os Lençóis passa apenas algumas horas na capital maranhense. Nós resolvemos fazer diferente: trabalhar durante o dia e explorar os arraiais à noite.
É no fim da tarde que a cidade muda de ritmo, que as ruas ganham sons, cores e encontros que atravessam a madrugada.
Uma festa que não cabe em uma arena
O São João de São Luís é único pela sua história, musicalidade, estrutura e diversidade de manifestações.
São cerca de 70 dias de programação e 25 arraiais espalhados por bairros, praças, centros esportivos e espaços públicos. Não existe um lugar único onde “a festa acontece”. A festa é a cidade.

O Arraial do Ipem (esquerda) é o maior e mais estruturado, com grandes palcos, praça de alimentação, parque infantil, feira de artesanato e ativações de marcas. É um ótimo ponto de partida para quem quer começar a entender esse universo de bois, ritmos, instrumentos e sotaques.
Já o Arraial de Santo Antônio (direita), em frente à igreja homônima no Centro Histórico, oferece uma experiência completamente diferente. As apresentações acontecem praticamente no chão. O palco é pequeno, os músicos ocupam o centro da roda e o público dança e canta junto. Na feira de comidas convivem barracas tradicionais, produtores da agricultura familiar e até uma barraca do MST.
A curadoria que fez diferença
Maíra nos apresentou à Duci França, moradora de São Luís e guardiã informal de um conhecimento que dificilmente aparece em qualquer guia turístico.
Ela enviou uma lista de grupos (bois, companhias de dança e grupos de cacuriá) e uma explicação que mudou completamente a forma como passamos a assistir às apresentações.
Existem bois feitos para o chão, como o Boi de Maracanã, o Boi da Maioba ou o Boi de Pindáre, que nasceram nos terreiros e fazem mais sentido vistos de perto, no meio da roda, sentindo o peso dos tambores.
E existem bois pensados para o palco, como o Boi de Axixá e o Boi de Nina Rodrigues, com seus toques de orquestra, instrumentos de sopro e melodias elaboradas, que pedem distância, luz e estrutura para revelar toda a sua beleza.
Essa distinção nos deu um novo jeito de explorar a cidade. Passamos a semana acompanhando a programação de cada grupo e de cada arraial pelo Instagram, decidindo o que assistir, onde e em que contexto. Foi uma das experiências culturais mais ricas que vivemos nos últimos anos e não custou um ingresso sequer.
Foi também quando percebemos que, para entender o São João do Maranhão, era preciso primeiro entender o Bumba Meu Boi.
Os sotaques do boi
Para quem nunca teve a oportunidade de conhecer, o Bumba Meu Boi do Maranhão é uma manifestação popular que mistura dança, música e teatro em torno de uma narrativa sobre um escravo, um boi e sua ressurreição. Em 2019, foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O que torna o Maranhão singular é a existência de cinco sotaques do Bumba Meu Boi: Matraca, Zabumba, Orquestra, Baixada e Costa de Mão. Cada um possui identidade própria, expressa nos instrumentos, na cadência da música, nas coreografias, nos figurinos e na forma de encenar a mesma tradição.
Além do boi, o São João de São Luís abriga outras manifestações igualmente fascinantes.

O Tambor de Crioula é uma dança circular de origem africana, realizada ao som de tambores afinados no fogo. As mulheres, com suas saias rodadas, dançam em homenagem a São Benedito. A manifestação é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro desde 2007.
Já o Cacuriá, criado na década de 1970 e eternamente associado à figura de Dona Teté, é a mais jovem dessas tradições. Sensual, bem-humorado e dançado em pares dentro de um grande cordão, nasce justamente quando o sagrado dá lugar ao profano, após o encerramento da Festa do Divino Espírito Santo.
Muitos São João
É claro que também existe o São João pop de São Luís. O Arraial do Castelão, montado no estádio de mesmo nome, reúne milhares de pessoas para assistir a grandes nomes da música brasileira, como Chitãozinho & Xororó, Bruno & Marrone e Péricles.
No centro histórico, também encontramos praças lotadas para acompanhar apresentações de artistas como Fagner, Alcione e Falamansa.
Mas, para além dos grandes shows, o que mais nos sensibilizou foi a mobilização das pessoas que mantêm essa cultura viva.
Músicos, brincantes, costureiras, artesãos, mestres da cultura, jovens e idosos ocupando os arraiais até altas horas da noite. Gente que ensaia, dança, toca, canta, costura, ensina e transmite esses saberes para as próximas gerações.
Talvez seja por isso que o São João de São Luís realmente não caiba apenas em uma arena. Porque o que faz essa festa atravessar gerações são as pessoas que continuam resistindo e encontrando maneiras de colocá-la novamente em movimento, ano após ano.